Ajuda
O melhor conselho que eu li sobre amamentação de gêmeos, ainda antes delas nascerem, foi: "Arrume uns livros, internet ou TV a cabo, sente a bunda no sofá e não faça mais nada por uns dois meses. E aceite toda a ajuda que puder". Foi o que eu fiz. A minha única obrigação era amamentar. Eu não conseguia fazer muito mais mesmo, tanto pela falta de tempo quando pela dor da cirurgia. Trocar fralda, dar banho, embalar, eu fazia se estivesse a fim ou disponível, o que não era freqüente. Em geral, o pouco tempo livre que eu tinha eu usava para tomar banho ou dormir. Ou escovar os dentes. E comer, sempre.
O que permitiu isso foi: um marido dedicado, minha mãe e minha sogra terem passado algumas semanas comigo no começo, e a doméstica que contratei quando elas tinham uns 20 dias e que depois ainda se revelou uma ótima babá. As avós faziam comida e me traziam no sofá, o dia inteiro. De meia em meia hora, minha mãe perguntava: quer água? Eu sempre queria. A minha sogra fazia canjica, canja, passava o dia na cozinha inventando novidades. O papai fez tudo o que estava ao alcance dele (só não conseguiu amamentar, hehe), e foi uma sorte elas terem nascido logo antes do período de férias escolares, então ele ficou em casa até os 3 meses. Os primeiros banhos, fraldas, foram dele. As avós levavam as bebês para dar voltinhas no quarteirão e tomar sol. De madrugada, os três se revezaram embalando uma enquanto eu amamentava a outra. Eu e as meninas temos muito a agradecer por isso.
Eu até considero que teria sido possível sobreviver sem essa ajuda nos primeiros meses. Mas não teria sido saudável. Do jeito que foi, eu passei esses primeiros dois ou três meses vivendo no limite – da insônia, da dor, do desespero de não saber o que fazer e quando fazer, do isolamento. Se eu tivesse precisado lavar roupa, cozinhar, limpar a casa, a história teria sido outra. Talvez eu tivesse ficado doente, talvez não tivesse conseguido amamentar, talvez tivesse acabado com o relacionamento.
Além da ajuda da família, o apoio e conforto que eu consegui em comunidades de mães na Internet (orkut, Yahoo!, e outras) e de livros sobre bebês foi fundamental. Todos os problemas que tivemos foram resolvidos com a ajuda desses recursos (ou pelo menos nos conformamos melhor sabendo que outros estavam em situação parecida ou pior). Sou muito grata a todas as pessoas que dedicaram seu tempo para compartilhar experiências e até aconselhamento profissional em blogs, grupos de discussão e comunidades. Eu não consigo nem imaginar como teria sido minha experiência de maternidade, que dirá com gêmeos, se não tivesse tipo acesso a essas informações. Imagino que teria feito muitas (mais) besteiras, que é o que vejo acontecer diariamente quando uma mãe chega nessas comunidades pela primeira vez depois de meses procurando uma solução para problemas simples que nem os conselhos (mesmo que bem intencionados) das vovós nem as recomendações (freqüentemente de uma ignorância atroz) dos pediatras resolvem.
Elas e eu
Uma das maiores tristezas de ter precisado de uma cesariana é que eu não me lembro de quando amamentei pela primeira vez. Por um lado, isso é bom porque minha médica fez questão de colocar as duas para mamar assim que eu saí da sala de cirurgia. Eu me lembro vagamente de um sonho em que minha cara coçava (efeito da morfina) e tinha uns bebês por cima de mim. Mas só fui amamentar consciente mesmo no dia seguinte. Da primeira vez, não sei se doeu, se pegaram bem, se saiu alguma coisa, não sei nada.
Elas foram recém-nascidas do tipo carrapato – mamavam o dia inteiro, sempre que estivessem acordadas. Com o tempo as mamadas foram se espaçando, e lá pelos 3 meses já estava mais ou menos estabelecida uma rotina de 2 em 2 horas. Hoje elas mamam a cada 2 ou 3 horas, e durante o dia nem adianta oferecer mais porque não querem, estão ocupadas com outras coisas.
Calculo que tenha passado mais de 12 horas por dia amamentando nos primeiros dois meses. Hoje, acho que ainda são umas 8. Quando as pessoas me perguntam se gosto de amamentar, eu nem sempre sei o que dizer. No começo, era tanto, que eu não tinha muito com que comparar. Agora que está mais tranqüilo, posso dizer que gosto bastante das horas que amamento uma por vez, fico brincando com a mãozinha delas, elas pegando em mim. Gosto quando elas estão morrendo de sono e vêm mamar e na hora ficam todas molinhas. Me divirto quando ficam tão interessadas no que está acontecendo em volta, ou no que eu estou falando, que largam o peito e se jogam para trás para olhar. É uma delícia quando dá para amamentar deitada, com tempo para abraçar e curtir o calorzinho delas. E é emocionante vê-las pegando uma na mãozinha da outra, se olhando nos olhos, sempre que mamam juntas.
Dores, Mastites
Comparando com histórias que ouço de outras pessoas e na Internet, acho que eu tive muita sorte. A Isabel demorou uns 3 meses para acertar totalmente a pega, o que me rendeu bicos doloridos, avermelhados, bolhinhas. Mas nunca saiu sangue, nunca chorei de dor, nunca ficou insuportável a ponto de eu ter medo da hora de amamentar. Quando o leite desceu, tive uma febrinha e quase desmaiei na mesa. Depois a Andréia, minha doula, veio aqui e deu uma desempedrada (em nem sabia que estava empedrada) e me ensinou a massagear e ordenhar.
Tive mastite três vezes. A primeira quando as meninas tinham perto de um mês. Acordei com febre, peito meio dolorido e começando a avermelhar. Liguei para o banco de leite e consegui que alguém viesse me ver à noite (totalmente impossível sair de casa por 2 horas nessa época, e eu anda nem tinha voltado a dirigir). A pessoa veio, foi muito atenciosa, me espremeu durante umas duas horas e aconselhou antibióticos. Liguei para minha GO e ela receitou, pronto.
Na segunda vez, eu já estava mais esperta (dois meses), então fui ao banco de leite (as meninas choraram inconsolavelmente por 2 horas), me espremeram, antibiótico.
O problema dos antibióticos é que, pelo menos para mim, diminuiu a produção. Então, além da febre, da dor, da encheção, ainda tinha que lidar com as meninas mamando horas a fio durante uma semana ou dez dias de tratamento.
Na terceira vez, eu estava de saco cheio de antibiótico e resolvi não tomar nada. A febre durou os mesmos dois ou três dias das outras vezes, fiz muita massagem e compressas quentes e frias, coloquei as meninas para mamar bastante e...passou! Depois disso, a única vez que tive algum problema foi há uma semana – o marido pegou as meninas de manhã, levou-as para passear e me deixou dormir. Três horas seguidas dormindo sem amamentar foram suficientes para eu acordar toda empedrada.
Sono e cama compartilhada
Não tivemos muita sorte no departamento sono. Bem, por um lado, elas nunca trocaram o dia pela noite. Desde que nasceram, à noite eu as levava para a cama e lá elas ficavam até amanhecer, com poucas exceções. Mas sempre acordaram com bastante freqüência. Na melhor época, lá pelos 2 meses, chegavam a dormir dois intervalos de 3 horas seguidas. Na pior, aos 4 meses, acordavam pelo menos uma vez por hora. Agora temos uma média de 2 horas entre cada mamada à noite. Nosso recorde é de cinco horas seguidas, pertence à Isabel e nunca foi repetido.
Eu planejei já antes de nascerem fazer cama compartilhada. Houve alguns arranjos diferentes dos quais não me lembro mais (tudo o que aconteceu nas duas primeiras semanas ficou meio enevoado na memória, só me lembro de dor e um calor insuportável durante a noite e comida durante o dia). O esquema que acabou ficando é um berço sem grade lateral, encostado na minha cama. Uma delas dorme no berço, a outra entre o pai e eu. Ele tem medo de amassar a criança, então colocamos uma almofadinha ao lado dela.
Para alternar os seios e não correr risco de uma ficar com mais leite do que a outra nem de um seio viciar com uma sucção mais forte ou mais fraca, eu faço assim: durante uma semana, a Isabel mama no seio direito à noite e no esquerdo de dia. Toda segunda-feira, troca. Assim, elas também dormem uma semana de cada lado e podem ficar do lado do papai.
Na hora de fazer as duas dormirem, eu sento na cabeceira da cama, elas ficam sobre almofadas e mamam até dormir. Isso pode demorar de uma hora a duas horas e meia – elas vão dormindo e acordando em intervalos bem curtos até embarcarem de vez. Aí coloco as duas na cama. Depois disso, se acordam separadas, eu deito do lado e dou o peito. Se acordam juntas, sento e repito o processo da almofada (na maioria das vezes, elas voltam a dormir rapidinho).
Durante o dia é outra complicação. Somente no último mês tenho conseguido fazer com que durmam mais de 10 minutos na cama ou no berço, antes disso eu ficava presa com uma ou duas no colo (e no peito) durante todas as sonecas do dia. Com aquela crise brava de acordar a noite inteira de meia em meia hora aos 3-4 meses, desenvolvi uma técnica colocar as duas para mamar ao mesmo tempo comigo deitada, que foi o que me salvou. Assim eu consigo que durmam umas 2 horas de dia e eu aproveito para ir junto. Não vou comentar o estado em que isso deixa minhas costas...
Comida, alergias
O tópico sono traz este daqui. Depois de mais de um mês de desespero, em que comecei a não querer ir para a cama nunca porque sabia que simplesmente não ia dormir, e ainda ia levantar mais dolorida do que antes de tanto virar de um lado para o outro para dar de mamar, me deu um estalo e me dei conta de que elas poderiam estar com uma alergia alimentar. Tinham vários sintomas clássicos: sono interrompido, tosse cheia, muita baba, assaduras constantes, irritação ao mamar (esperneavam o tempo todo, me beliscavam com muita força, eu ficava toda roxa). Resolvi cortar laticínios. Em uma semana, a assadura passou, em duas foi-se a tosse e com umas três ou quatro semanas começaram a dormir um pouco melhor. Mas ainda não estava muito bom. Quando cortei o glúten, melhorou muito. Os fins de madrugada eram uma tortura (para elas e para mim). A partir da 3 ou 4 da manhã, elas acordavam sem parar de meia em meia hora e mamavam desesperadamente sem conseguir voltar a dormir. Agora, só acordam, mamam e voltam a dormir tranqüilas. Eu também não estou comendo soja, cítricos, peixe, carne de vaca, cebola e ovos.
Depois de 6 semanas sem comer laticínios, comi um pedaço de chocolate. Cinco horas depois, as duas mal conseguiam mamar de tanta coriza. Há duas semanas, tentei comer aveia. No mesmo dia, à tarde, estavam com o bumbum todo vermelho quando fui trocar a fralda. Tive mais sorte com ovos – testei essa semana e não houve reação.
Gear
No começo da gravidez, quando ainda estava indo a um médico totalmente sem noção, ele me apresentou as tais conchas de preparo para os seios. Achei um treco horroroso. Dei uma olhada na farmácia e vi o preço, achei pior ainda. Pois mais para frente acabei ganhando dois conjuntos de presente. E também ganhei um tubo de pomada de lanolina. Me salvaram a vida nos primeiros meses. A pomada dava uma aliviada na ardência, principalmente na hora do banho. E não precisava nem tirar na hora de mamar. E as conchas seguravam o excesso de leite sem machucar o bico com muito atrito.
À noite, eu usava absorventes para os seios mesmo, porque era tirar e pôr o tempo todo, ia ser uma meleca se usasse as conchas. O inferno era que, depois de virar para os dois lados e dar o peito umas quinze vezes para cada uma, tonta de sono, eu acabava perdendo os absorventes na cama. Aí comecei a usar só uma fralda, com uma ponta enfiada em cada lado do sutiã. Pelo menos uma coisa só era mais difícil de perder. Mas o que funcionou mesmo no fim foram aqueles "paninhos de boca", que teoricamente servem para limpar o leitinho que o bebê arrota. Mas as meninas quase nunca regurgitavam, e os paninhos têm um botãozinho mágico de prender na roupa. Eu prendia na alça do sutiã e pronto! Nunca mais fiquei me melando toda e caçando absorventes debaixo do travesseiro. O que é bom mesmo é que lá pelos três meses os peitos param de vazar.
Todo mundo pergunta como é amamentar duas ao mesmo tempo. No começo, era fácil – elas eram levinhas, eu praticamente carregava uma em cada braço para dar o peito. Foram crescendo, eu fui usando almofadinhas para apoiar aqui e ali, e chegou uma hora que era uma operação de guerra colocar as duas para mamar no sofá – trocentos travesseiros, almofadinhas, apoiozinhos para conseguir a posição perfeita, e sempre precisava de alguém para ajudar. Aí mandei fazer uma almofada especial, em formato de U, que encaixa no meu corpo, coloco uma de cada lado, as cabeças se encontrando no meu estômago e os pezinhos para trás. Na cama, ainda uso travesseiros daqueles bem grandes e gordos. Depois que elas cresceram e ganharam mais controle do corpo, também ficou mais fácil ajeitar. Em compensação, a variedade de posições diminuiu – quando recém-nascidas, eu brincava dizendo que elas eram capazes de mamar até de cabeça para baixo, penduradas pelos pés, de tantas posições esdrúxulas que experimentamos.
Exemplos: as duas com os pés para trás, por baixo dos meus braços; as duas com os pés para dentro, meio que sentadas no meu colo; as duas com os pés para o mesmo lado, a segunda apoiando a cabecinha na barriga da irmã; na cama, comigo deitada de lado, uma no seio de baixo com o corpo afastado para trás, a outra no de cima apoiada em uma almofadinha comprida; comigo deitada de costas, meus braços apoiados em travesseiros grandes, as duas ao longo do meu corpo; e variações sobre todas essas posições, com uma sobre almofadas e a outra no braço, etc. Tudo dependia de onde eu estava, de quando tempo e quantas pessoas tinha para me ajudar, de como estava a pega delas, se precisavam dormir ou não, etc.
Trabalho
Sou tradutora e intérprete. Antes de elas nascerem, eu trabalhava em casa de
Voltei a aceitar traduções quando elas fizeram 2 meses. Eu calculei que, mantendo somente os clientes melhores (=menos serviço e mais dinheiro), trabalhando de duas a três horas por dia, conseguiria pelo menos manter uma rendinha para não esburacar minha poupança impiedosamente. Na maioria das vezes, eu trabalho à noite, quando elas vão dormir, e muitas vezes vou até de madrugada. Quando a coisa aperta, trabalho de dia, com criança no peito, do jeito que der. É claro que nessas horas, a ajuda do marido e da babá é fundamental.
Hoje, por coincidência, aceitei a primeira proposta de simultânea depois que elas nasceram. Vou trabalhar durante 4 horas, dois dias, nesse fim de semana. Vamos ver como nos saímos.
Oi Júlia! Que legal a sua história e a das pequenas, parabéns! Já tinha acompanhado um pouco na comunidade, mas com esse seu texto pude sentir bem de perto a sua experiência. Amamentar é bom demais, eu já amamentei dois (há muuuuuuito tempo), mas primeiro só um e dois anos depois o outro, rsrsrsrrs. Delícia e saudades daquela êpoca! Hoje tenho dois rapazes fortes, lindos, companheiros e muito saudáveis e agradeço todos os dias ter podido estar tão perto deles desde que nasceram, o retorno é inimaginável e sempre vale a pena! Besos y adelante! (Já deixei meu voto lá!)
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